Cantigas Medievais: A Fascinante História do Sufixo ‘-ão’ e ‘-ãe’

A Evolução da Pronúncia no Galego-Português Medieval

A primeira gravação reconhecível de uma voz humana ocorreu em 1857, quando o inventor francês Léon-Scott de Martinville registrou alguns compassos da canção tradicional Au Clair de Lune em seu aparelho, o fonoautógrafo. Antes disso, não temos evidências diretas sobre como nossos antepassados pronunciavam as palavras.

Métodos Inusitados na Linguística

Para preencher essa lacuna histórica, a linguística utiliza várias abordagens, algumas delas surpreendentes. Os estudadores do latim, por exemplo, analisam erros ortográficos presentes nas pichações da Roma Antiga. Uma inscrição em Pompeia traz a palavra pagatus, que sugere que a consoante “c” havia evoluído para um “g” no latim vulgar, falado no cotidiano.

A linguista Gladis Massini-Cagliari, professora da Unesp em Araraquara, junto com sua orientanda Débora Barreto, analisou 250 cantigas medievais em galego-português dos séculos 13 e 15. Através da divisão dos versos em sílabas, elas descobriram que a pronúncia dos ditongos nasais, como “-ão”, era diferente na época do rei D. Afonso X.

Hiatos e Ditongos: O que Você Precisa Saber

Atualmente, palavras como “não” e “cão” são pronunciadas em uma única sílaba. Se você colocar a mão na frente dos lábios ao dizer “mão”, perceberá apenas uma lufada de ar. No entanto, no galego-português medieval, essas palavras eram ditas com duas sílabas: “nã-o” e “mã-o”. Isso se deve ao fato de que os hiatos, onde duas vogais pertencem a sílabas diferentes, eram mais comuns.

Embora se saiba há décadas que ditongos como “-ão” e “-ãe” podiam ser pronunciados como hiatos, Massini-Cagliari e Barreto inovaram ao abordar a questão pela perspectiva da fonologia não linear. Essa abordagem leva em conta a prosódia da língua, como entonação e ritmo.

O Impacto da Métrica na Pronúncia

O estudo revela que a métrica das canções medievais impõe restrições às palavras que podem ser usadas em um verso. Por exemplo, ao substituir “paixões” (que possui duas sílabas) por “amores” (com três sílabas), a melodia se torna incompatível. A análise das cantigas mostrou que, ao considerar os ditongos como hiatos, os versos fluem naturalmente.

O Uso do Til (~) e a História da Escrita

O til (~) já era utilizado para abreviar palavras. Por exemplo, “prazer” era escrito como “p~zer”. Com o tempo, passou a indicar sons anasalados. Sabemos pouco sobre o momento exato dessa transição. Contudo, essa mudança é crucial para entender a evolução da pronúncia das palavras.

Os falantes de galego-português identificavam o til como uma abreviação da consoante “n”. Essa percepção ajudou a moldar a forma como eles agrupavam as sílabas. Com o passar do tempo, a consoante nasal “n” fundiu-se com a vogal “a”, resultando em sons como “ã”.

A Metrificação das Cantigas

No século 13, havia um método diferente de contagem de sílabas. A chamada Lei de Mussafia considerava todas as sílabas, independentemente de serem tônicas ou não. Ao aplicar esse método às Cantigas de Santa Maria, é possível concluir que palavras com ditongos eram, na verdade, pronunciadas como hiatos.

A Importância das Cantigas de Santa Maria

As Cantigas de Santa Maria são uma coleção de 420 músicas em galego-português, atribuídas ao rei D. Afonso X. Essas composições abordam temas religiosos e mundanos. O estudo das cantigas, que inclui tanto textos sacros quanto profanos, revela muito sobre a linguagem e a cultura da época.

Tamos com várias variantes nas métricas e rimas, mas a forma fixa chamada jézel predomina em 380 das 420 peças. Essa diversidade é essencial para compreender a evolução da linguagem.

Por Que Importa

  • Reconstrução Histórica: O estudo ajuda a entender a pronúncia do galego-português medieval.
  • Aprimoramento do Ensino: Os dados podem aprimorar o ensino do português como língua estrangeira.
  • Valorização Cultural: As músicas preservadas refletem a rica herança cultural da língua portuguesa.

Fonte: super.abril.com.br